Estar dentro de um ônibus, seja indo para o trabalho, faculdade ou qualquer compromisso, deveria ser algo simples. Mas infelizmente, muitas pessoas – principalmente mulheres – acabam passando por situações de assédio no transporte público, algo que gera medo, vergonha e sensação de impotência. A boa notícia é que você não está sozinha e existem formas de denunciar esse tipo de crime. E sim, é crime!

Neste artigo, vamos mostrar o passo a passo de como agir, o que fazer na hora, onde denunciar, quais os seus direitos e como proteger outras pessoas também. Não vamos florear: o assunto é sério, e quanto mais informação circular, mais segura a gente se sente.
O que é considerado assédio no ônibus?
Antes de qualquer coisa, é importante entender o que é assédio nesse contexto. Não precisa ter toque para ser considerado assédio, tá?
São considerados atos de assédio no transporte público:
- Encostar de forma intencional e sem consentimento
- Ficar encarando de forma lasciva
- Tirar fotos ou gravar vídeos sem autorização
- Falar frases com conotação sexual
- Mostrar partes íntimas
- Masturbação dentro do ônibus
- Qualquer gesto, aproximação ou comentário de cunho sexual
Tudo isso é crime, e você tem total direito de reagir, pedir ajuda e denunciar.
Primeira coisa: sua segurança vem primeiro
Quando acontece o assédio, é normal sentir raiva, medo ou até paralisar. Não se culpe por nenhuma dessas reações. Cada pessoa reage de um jeito. O importante é, assim que se sentir segura, tentar tomar as seguintes atitudes:
1. Se afaste do agressor
Se conseguir, troque de lugar ou vá em direção ao motorista. Quanto mais distante da pessoa, melhor para sua segurança.
2. Peça ajuda
Você pode:
- Falar com o motorista
- Avisar passageiros ao redor
- Gritar ou dizer em voz alta o que está acontecendo
A vergonha não é sua. Quem está errado é o agressor.
3. Registre o máximo de informações
Se possível, anote:
- A linha do ônibus
- O número do veículo (geralmente fica colado nas janelas)
- Horário do ocorrido
- Aparência do agressor
- Fotos, vídeos ou áudios, se puder registrar com segurança
Tudo isso vai ajudar na denúncia posterior.
Onde denunciar assédio no ônibus?
Agora que você sabe o que é assédio e como agir na hora, o próximo passo é denunciar. Existem várias formas de fazer isso, e você pode escolher uma ou mais delas, dependendo da situação.
1. Aplicativos e canais das empresas de ônibus
Muitas empresas de transporte têm canais diretos para denúncias. Por exemplo:
- SPTrans (em São Paulo): através do site oficial ou telefone 156
- EMTU: possui o app ou atendimento online
- BRT (em algumas capitais): app próprio ou SAC
- Em algumas cidades, o número do ônibus pode ser usado no site da prefeitura para registrar queixa
2. Delegacia da Mulher
Você pode ir presencialmente ou procurar a Delegacia da Mulher (DDM) mais próxima. Se for em um dia útil, leve as informações que conseguiu reunir. Eles podem abrir boletim de ocorrência e dar encaminhamento ao caso.
3. Delegacia Digital
Se não conseguir ir pessoalmente, é possível fazer a denúncia pela internet. Basta procurar no Google “delegacia digital + nome do seu estado”. Preencha o formulário e descreva o que aconteceu.
4. Ligue 180
Esse é o canal da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas e atende todo o Brasil. É gratuito e pode ser feito até de orelhão. Você pode denunciar de forma anônima e ainda receber orientação jurídica e psicológica.
Dica prática: aplicativos que ajudam
Hoje em dia, a tecnologia também pode ser uma aliada para denunciar. Veja alguns exemplos:
- Botão do pânico (em apps de transporte público)
- Zap Respeita As Mina (Bahia): canal via WhatsApp
- Ônibus sem assédio (Minas Gerais): campanhas integradas aos apps de mobilidade
- App Cittamobi ou Moovit: alguns têm canal direto de denúncia
Nem todos estão disponíveis em todos os estados, então vale pesquisar o que está ativo na sua região.
Assédio no ônibus é crime?
Sim! O assédio no transporte público é crime previsto por lei. Dependendo do tipo de ação do agressor, ele pode responder por diferentes crimes, como:
- Importunação sexual (Art. 215-A do Código Penal) – pena de 1 a 5 anos
- Assédio sexual (Art. 216) – em relações de hierarquia, pena de 1 a 2 anos
- Ato obsceno (Art. 233) – pena de 3 meses a 1 ano
Se o caso envolver violência física, a pena pode ser ainda mais grave.
Tenho medo de denunciar. E agora?
Você não está sozinha. Muitas pessoas sentem o mesmo. Algumas têm medo de represálias, outras acham que não vai dar em nada. Só que, quanto mais pessoas denunciarem, mais pressão será feita para que o sistema funcione.
Veja algumas formas de se proteger e ainda assim não se calar:
- Peça anonimato: nos canais da polícia ou 180, é possível denunciar sem se identificar
- Procure apoio emocional: ONGs, psicólogas voluntárias e grupos de apoio existem para acolher
- Fale com alguém de confiança: dividir o que aconteceu ajuda a aliviar o peso
Como prevenir e proteger outras pessoas?
Infelizmente, nem sempre dá para evitar o assédio, mas algumas atitudes ajudam a fortalecer a rede de proteção:
- Compartilhe informações como esta com outras mulheres
- Ofereça ajuda se presenciar um caso de assédio
- Incentive colegas a denunciarem
- Apoie campanhas de respeito nos transportes
- Pressione empresas e prefeituras a manterem botão de pânico, câmeras e equipes treinadas
Quanto mais gente envolvida, mais difícil fica para o agressor agir impunemente.
O que fazer se eu presenciar alguém sendo assediado?
Se você não for a vítima, mas perceber que alguém está sendo assediado no ônibus, sua ajuda é valiosa. Não precisa se expor, mas há várias maneiras de agir:
- Pergunte à vítima se está tudo bem
- Se posicione entre ela e o agressor
- Chame o motorista ou peça para parar o ônibus
- Ofereça ajuda para denunciar depois
- Registre provas com o celular (sem comprometer sua segurança)
A solidariedade muda tudo. Muitas vítimas não conseguem reagir sozinhas, então um simples gesto de apoio já faz diferença.
Por que é importante sempre denunciar?
Quando você denuncia, mesmo que pareça algo pequeno, você está dizendo: isso não é normal. E está ajudando outras pessoas a não passarem pelo mesmo. Além disso:
- Empresas podem identificar linhas ou horários mais perigosos
- Políticas públicas podem ser implementadas com base nas estatísticas
- Agressores reincidentes podem ser identificados mais rápido
- A sociedade começa a entender que transporte público não é “terra sem lei”
Denunciar assédio no ônibus é um ato de coragem, mas também de responsabilidade. É a forma que temos de nos proteger, de proteger outras pessoas e de mostrar que não vamos mais tolerar esse tipo de violência.
Você tem o direito de andar tranquila, de ocupar os espaços públicos com dignidade e respeito. A vergonha não é sua. O errado é quem assedia. E a justiça precisa ser acionada para que situações assim não virem rotina.
Se você passou por isso, ou conhece alguém que passou, fale, denuncie, oriente. Uma atitude sua pode transformar um sistema inteiro. E lembre-se: não é frescura, não é exagero, é seu direito.